2 min leitura

[Conto] Só entra no jogo

[Conto] Só entra no jogo

Aí, um dia, talvez sem que nem ela mesma estivesse consciente do que tinha deixado transparecer, ele percebeu que sua mina ficava mais excitada quando sentia medo. Claro, não era um sentimento verdadeiro, mas um fetiche dela, sei lá. E ele existia para quê nesse mundo? Para alimentar o tesão daquela mulher. Ele era phoda! Fazia por merecer aquela guria…

Então, foi às lojas de “brinquedos”. Comprou uma falsa tornozeleira eletrônica, uma arma de plástico, tatuagens de chiclete. Mandou descolorir o cabelo, cortar na régua, bigodinho sacana. Uma camiseta de time europeu de futebol, um monte de colares grossos, um relojão dourado. Tudo no camelô. Fez feira. Não, minto. O cabelo e o bigode ele mandou fazer em um lugar bem longe do cara que toda vida cuidou disso nele. Foi pra casa. Uns minutos antes de ela chegar da faculdade, ele se sentou no sofá, de perna aberta, abriu uma cerveja. Escreveu pra ela: “Vai me ver diferente quando chegar. Se prepara e só entra no jogo. Deixa comigo e já vem se molhando.”

Caraca. Ela chegou a tremer quando leu. Sentiu firmeza nas palavras dele, poder, voz de comando. Sentiu cheiro de macho! Mordeu os lábios e se preparou para se entregar ao que fosse. E, exatamente como ele tinha pedido, dentro do ônibus mesmo, naturalmente, sem botão de liga/desliga para o tesão, percebeu que estava ficando toda úmida: preparada para dar. Para dar-se!

Antes de abrir a porta da casa deles, ela ouviu um trap tocando. Quando entrou, ele olhou firme pra ela e sorriu malicioso. “O que é isso, Daniel?” - perguntou. E ele: “Isso é isso!” - e entregou  um papel pra ela que ele tinha planejado também. Na folha, tinha o slogan da Polícia e dizia “Liberdade Condicional”. “Ganhei liberdade condicional. Vou ficar em casa com isso aqui (mostrou a tornozeleira de carnaval, mas que parecia bem convincente na hora) pra cuidar de você, pra proteger você contra esses maloqueiros da vila!”

Ela viu todo o figurino dele, o cabelo, o papel, o negócio no tornozelo dele. E fez como ele tinha pedido: entrou no jogo. “Então ninguém mais vai me assediar na rua?” - disse a Mari com voz fininha. “Não. E, se alguém se meter a besta, eu vou só mostrar aqui” - e Daniel mostrou a arma. Mari tremeu. E sentiu a temperatura do corpo subir. “Mas, ô Mari… Tu sabe, né… Oito meses lá naquele lugar… Só macho em volta… Tu bem que podia…” - e encostou na braguilha com força,  mostrando pra ela que ali havia algo volumoso.

Mari não pensou duas vezes. Se ajoelhou e…

Bem, Daniel e sua mina, naquela noite, fizeram amor por dez horas seguidas. Foram virados pro trabalho no dia seguinte. E, ao chegarem, repetiram mais uma vez o teatrinho. Claro, foi um fetiche. E fetiche que é fetiche não pode virar rotina. Mas, na semana seguinte, foi a vez de Mari escrever do trabalho pra seu homem.

“Mor, semana passada, você pediu para eu me preparar e entrar no seu jogo. Hoje me espera preparado você que vai me ver diferente. Confia e me segue. Até mais tarde, beijos.” Daniel leu e, ao sentir sua mina no comando, percebeu sua cueca explodir. E confiou.

Se não for pra ser que nem o Daniel e a Mari, eu não me caso de novo.

Autoria realoficialbora