Conto: Uma quinta de chuva e desejo

A quinta-feira amanheceu cinzenta, com nuvens pesadas que despejavam gotas incessantes de chuva sobre a cidade. Lara observava a água escorrer pela janela de sua sala, perdida em pensamentos. O som da chuva a embalava, mas o frio e a solidão daquele dia a faziam desejar mais calor, mais proximidade.

Quando o interfone tocou, ela não esperava visitas. Era Gabriel, o vizinho do andar de cima, que havia prometido emprestar um livro semanas atrás e, pelo visto, resolvera cumprir a promessa em plena tempestade.

— Achei que hoje seria um bom dia para leitura — disse ele, com um sorriso, ao entrar no apartamento.

Lara notou que Gabriel estava levemente encharcado, com algumas gotas escorrendo de seus cabelos escuros e molhando sua camiseta.

— Você está pingando! — exclamou ela, rindo, enquanto pegava uma toalha no banheiro.

Sem hesitar, Gabriel tirou a camiseta, revelando um corpo marcado por linhas fortes e o brilho sutil da água. O gesto, natural para ele, deixou Lara sem palavras por um momento. Sentindo o calor subir por sua pele, ela tentou desviar o olhar, mas ele percebeu.

— Tudo bem? — perguntou, com uma expressão que misturava curiosidade e algo mais… algo carregado de intenções não ditas.

— Sim, claro — respondeu ela, um pouco apressada, entregando a toalha.

Mas, ao fazer isso, suas mãos se tocaram, e o choque foi inevitável. Gabriel não recuou; pelo contrário, se aproximou lentamente. O som da chuva era agora um pano de fundo hipnotizante, como se o mundo inteiro os isolasse naquele instante.

— Lara… — sussurrou ele, baixando o tom.

Ela respondeu com um olhar, e aquele foi o convite que ele precisava. Suas mãos deslizaram pela cintura dela, puxando-a para perto, enquanto seus lábios finalmente se encontravam. O beijo foi quente, intenso, uma mistura de desejo represado e curiosidade.

A chuva aumentava lá fora, mas dentro do apartamento, o frio havia desaparecido. O sofá, antes cenário de leituras solitárias, agora era palco de carícias profundas, de roupas deixadas de lado, de corpos explorando cada detalhe um do outro.

Horas se passaram sem que percebessem. O cheiro da chuva misturava-se ao calor de seus corpos, criando um ambiente único, um segredo só deles.

Quando o temporal finalmente deu uma trégua, Lara olhou para Gabriel, os dois ainda envolvidos no sofá.

— Acho que você vai ter que me emprestar mais livros — disse ela, com um sorriso travesso.

E ele respondeu com outro beijo, prometendo silenciosamente que a história deles estava apenas começando.